30.5.17

uma última tentativa




apertei, espremi, tentei de todo jeito
me apeguei as distâncias pra tentar me proteger
pra não me perder
fiz discursos diretos perfeitos pra me convencer
repeti como um disco riscado

nada, nada adiantou
e essa distância só amplifica o peso das memórias

tentei não ficar presa
seguir em frente
mas a vida está acontecendo agora
e do jeito mais sofrido tentamos não deixar ela ser e existir
impondo silêncios, olhares tristes e vazios

quero me jogar numa última tentativa
jogar o peso pra roda da vida
fazer girar o tempo perdido

ter um tempo real pra conversar
pra existir de verdade, com todos os problemas e defeitos
pra parar de ser sonho ou pesadelo
quero só ser uma pessoa de carne e osso
que não precisa fingir ou ser memória dolorida

só mais essa tentativa
um tempo real nesse recorte de espaço
uma brecha pra dizer o que faz sentido de verdade

* e a arte de tentar, tentar e falhar...


26.3.17

saudade do avesso, aperto


água - instagram @juliribeiroc


um sentimento desvirado
uma saudade do avesso
aperto

solta e volta
no fio emaranhado
do um com o outro
do outro encontro

pra dizer de tantas formas
só mais um adeus
numa palavra
num impulso
naquele último abraço

o correr dos dias
num pulo vira mês
vira ano
calor e suor na testa
estômago revirando

cai noite
aquele toque
e tudo, tudo
volta nos sonhos
de novo
e de novo...



os corpos, os amores




até onde seguram-se os corpos
os amores
o que está por dentro
e persiste com o tempo

os ventos tratam de levar pra longe
bagunçam nossos cabelos
e voltam soprando a nuca

os tecidos se esfriam e dançam
nos confundem os olhos
e a vontade
...
até quando
se desmancham no hálito
na poesia escondida
numa despedida
na vontade de ficar


5.3.17

a gente gira...



a gente gira em torno do próprio umbigo, sofre e sente, pensa tanto, tentando entender as coisas, ver cada lado, sempre com os ruídos do egoísmo, do medo, da insegurança.

uma briga aqui e outra ali, quantas brigas é possível ter e o quanto essas brigas falam de medo e de amor.

sentir desse jeito desmedido, tão confuso e no fim das contas ser tão sozinha, se não faço alguma coisa, não tem ninguém pra fazer no lugar, todas as responsabilidades continuam ali, pairando e pesando, as vezes não consigo carregar.

desde os 20 anos, sigo conversando com aquela menina inquieta, poeta e triste, que persiste aqui dentro, por mais que a carcaça mude e as marcas do tempo apareçam, ela ainda existe e aperta em cada briga, em cada solidão, a cada amontoado de coisas que preciso dar conta de um jeito ou de outro.

as vezes tento só deixar o tempo passar, espero se acumular alguma energia ou acontecer alguma reviravolta pras coisas se tornarem menos difíceis.

agora mesmo a tristeza aperta e a noite vai ser longa até amanhecer e eu poder dar um abraço no Caio, pedir desculpas, dizer que toda aquela bronca é amor. e, disfarçar... que só de pensar nele uma semana fora de casa dá um medo tão grande, que eu não sei dividir, preciso tanto de ajuda, preciso sim, mas não sei confiar, não aprendi, isso não me deixaram aprender.