26.3.17

saudade do avesso, aperto


água - instagram @juliribeiroc


um sentimento desvirado
uma saudade do avesso
aperto

solta e volta
no fio emaranhado
do um com o outro
do outro encontro

pra dizer de tantas formas
só mais um adeus
numa palavra
num impulso
naquele último abraço

o correr dos dias
num pulo vira mês
vira ano
calor e suor na testa
estômago revirando

cai noite
aquele toque
e tudo, tudo
volta nos sonhos
de novo
e de novo...



os corpos, os amores




até onde seguram-se os corpos
os amores
o que está por dentro
e persiste com o tempo

os ventos tratam de levar pra longe
bagunçam nossos cabelos
e voltam soprando a nuca

os tecidos se esfriam e dançam
nos confundem os olhos
e a vontade
...
até quando
se desmancham no hálito
na poesia escondida
numa despedida
na vontade de ficar


5.3.17

a gente gira...



a gente gira em torno do próprio umbigo, sofre e sente, pensa tanto, tentando entender as coisas, ver cada lado, sempre com os ruídos do egoísmo, do medo, da insegurança.

uma briga aqui e outra ali, quantas brigas é possível ter e o quanto essas brigas falam de medo e de amor.

sentir desse jeito desmedido, tão confuso e no fim das contas ser tão sozinha, se não faço alguma coisa, não tem ninguém pra fazer no lugar, todas as responsabilidades continuam ali, pairando e pesando, as vezes não consigo carregar.

desde os 20 anos, sigo conversando com aquela menina inquieta, poeta e triste, que persiste aqui dentro, por mais que a carcaça mude e as marcas do tempo apareçam, ela ainda existe e aperta em cada briga, em cada solidão, a cada amontoado de coisas que preciso dar conta de um jeito ou de outro.

as vezes tento só deixar o tempo passar, espero se acumular alguma energia ou acontecer alguma reviravolta pras coisas se tornarem menos difíceis.

agora mesmo a tristeza aperta e a noite vai ser longa até amanhecer e eu poder dar um abraço no Caio, pedir desculpas, dizer que toda aquela bronca é amor. e, disfarçar... que só de pensar nele uma semana fora de casa dá um medo tão grande, que eu não sei dividir, preciso tanto de ajuda, preciso sim, mas não sei confiar, não aprendi, isso não me deixaram aprender.


1.3.17

jogo de prefixos


jules et jim

o descompasso insiste
medo de deixar
de seguir
de sentir desmedido
prender tanto
pra precisar soltar

o sentimento repreendido
confronta o espontâneo
com ternura, carinho e desejo
com impaciência e insegurança

o tempo é um espaço entre duas linhas
que quase se tocam
numa noite ou outra
se esbarram numa risada
numa manhã sem pressa de levantar
na vontade de encontrar
de não pensar em nada
em volta
e dentro

o espaço de tempo é desprendido
dos estranhos rumores
dos caminhos perdidos
debaixo dos travesseiros
nos lençóis caídos

murmúrio, pele e toque
palavra, silêncio e sorte
é terno o olhar

a gente decide o que quer
a vida e a realidade se impõem
linha, corpo e espaço
embaralhados

corre, espera, dorme
solta, segura e cobre
o jogo de prefixos nos consome
brincar de amor dói
não esquece, que somos feitos de carne
e que sonho também transborda