5.3.17

a gente gira...



a gente gira em torno do próprio umbigo, sofre e sente, pensa tanto, tentando entender as coisas, ver cada lado, sempre com os ruídos do egoísmo, do medo, da insegurança.

uma briga aqui e outra ali, quantas brigas é possível ter e o quanto essas brigas falam de medo e de amor.

sentir desse jeito desmedido, tão confuso e no fim das contas ser tão sozinha, se não faço alguma coisa, não tem ninguém pra fazer no lugar, todas as responsabilidades continuam ali, pairando e pesando, as vezes não consigo carregar.

desde os 20 anos, sigo conversando com aquela menina inquieta, poeta e triste, que persiste aqui dentro, por mais que a carcaça mude e as marcas do tempo apareçam, ela ainda existe e aperta em cada briga, em cada solidão, a cada amontoado de coisas que preciso dar conta de um jeito ou de outro.

as vezes tento só deixar o tempo passar, espero se acumular alguma energia ou acontecer alguma reviravolta pras coisas se tornarem menos difíceis.

agora mesmo a tristeza aperta e a noite vai ser longa até amanhecer e eu poder dar um abraço no Caio, pedir desculpas, dizer que toda aquela bronca é amor. e, disfarçar... que só de pensar nele uma semana fora de casa dá um medo tão grande, que eu não sei dividir, preciso tanto de ajuda, preciso sim, mas não sei confiar, não aprendi, isso não me deixaram aprender.


1.3.17

jogo de prefixos


jules et jim

o descompasso insiste
medo de deixar
de seguir
de sentir desmedido
prender tanto
pra precisar soltar

o sentimento repreendido
confronta o espontâneo
com ternura, carinho e desejo
com impaciência e insegurança

o tempo é um espaço entre duas linhas
que quase se tocam
numa noite ou outra
se esbarram numa risada
numa manhã sem pressa de levantar
na vontade de encontrar
de não pensar em nada
em volta
e dentro

o espaço de tempo é desprendido
dos estranhos rumores
dos caminhos perdidos
debaixo dos travesseiros
nos lençóis caídos

murmúrio, pele e toque
palavra, silêncio e sorte
é terno o olhar

a gente decide o que quer
a vida e a realidade se impõem
linha, corpo e espaço
embaralhados

corre, espera, dorme
solta, segura e cobre
o jogo de prefixos nos consome
brincar de amor dói
não esquece, que somos feitos de carne
e que sonho também transborda



9.2.17

entardecer




hoje quando saí do trabalho segui caminho pelo Instituto Butantã, metade da calçada tinha sombra. com o horário de verão, dezessete horas ainda parece meio da tarde. as folhas e galhos pequenos e secos estalam nas solas da alpargata.

fui até o fim do segundo quarteirão, que beira um campo largo e verde, no início uma casa de joão de barro replicada, na beirada bancos arqueados de praça. sinto o sol que escapa entre a copa das árvores, um passo atrás e uma meia volta, decido ler um pouco ali mesmo, pra aproveitar um tanto mais o dia.

minha concentração não é das melhores, deito as costas na grama, sempre me impressiona o céu azul, o contraste das nuvens, o brilho do sol... um solzinho gostoso de sentir na pele, que vai esmaecendo lentamente e brincando com o desenho da sombra das folhagens, sigo um pouco mais na leitura... essa sensação me faz lembrar você, fecho os olhos um instante, penso no último abraço feito de saudade.

abro os olhos, o céu e a grama, mesmo com o entardecer, parecem ainda mais claros, nítidos como a vontade de que aquela sensação chegasse até você, em alguma brechinha dos seus turnos de tinta, máquina e papel, num pedaço do descanso no final do dia. pra ficar um pouco mais perto, sim, mas também pra ter na sua rotina essa sensação na pele e no peito, que devia existir nos finais de tarde, na vida, de todo mundo...

quando o vento começa a esfriar, levanto, uma boa sacudida pra tirar as graminhas soltas e alguma formiga perdida nas roupas. sigo até o ponto, a fome aperta e vários ônibus muito cheios passam, na rua perto de casa passo numa quitanda, aqui mais pro lado do Rio Pequeno ainda tem desses comércios menores. compro uns limões, vagens, caquis e uma paçoca. os caquis estão maduros e firmes, cortados em fatias fica ainda mais bonito o vermelho alaranjado. estão doces, muito doces. vem uma vontade de escrever sobre essas coisas bonitas e meio bobas...






1.2.17

terra, lama, impulso, vontade intumescida


Stuck - https://www.instagram.com/juliribeiroc/

o bom de se sentir mal, muito mal, é que vem uma vontade de mudar tudo com urgência. esse negócio de amadurecer, sofrer e ter urgência embola uma coisa no peito, puxada lá das entranhas, uma coisa de virar do avesso do avesso, coloca a vida em outra medida de tempo...

e, eu que já sou outra, aquela que nunca é a mesma, nas águas que são sempre outras, de um rio que não tem espera, mergulho fundo, respiro no impulso da água gelada, da água que se confunde, turva, na agitação do passo na terra lodosa, escorregadia.

água, terra, lama, impulso. lava, molha, encharca o espírito, a vontade intumescida. esse correr da água que leva, lava, mas não apaga. o que a gente foi, o que a gente quer, o que ficou preso nas margens perdidas, os restos de tecidos envelhecidos, os galhos e folhas secas quebradiços.

a gente acaba dando um jeito de sair pela outra margem, de atravessar, nada contra a correnteza, engole água. mas a urgência vai e empurra, de algum jeito alguma hora passa... esse afogar.