17.5.11

Aves de verão

uma surpresa agradável, em paisagens amplas, de pessoas reais, a impressão de que tudo aquilo aconteceu daquele jeito e naquelas cores.

Greta gosta de cor-de-rosa, de fazer bolo, de camping e quer fazer um amigo, quer mais que um amigo qualquer, quer se conectar a alguém, ser vista e sentida como qualquer pessoa, como uma mulher, tem 33 anos e uma deficiência que em muitos momentos a faz parecer ter menos de 13, mas num esforço do tamanho de sua vontade de fazer parte do que a rodeia ela dá conta das emoções, cativa e constrói seus laços.

Res "um adulto normal?", muitas vezes dominado por impulso e por uma raiva maior que seu tamanho, maior que seu coração, acaba agindo irracionalmente, afastando as pessoas, usando sua força desmedida e desastrada para machucar, é um solitário, ex-presidiário, motoqueiro, bom em consertar coisas, não sabe pedir desculpas e nem conversar.

no encontro desses dois, hora Greta se machuca, hora Ress aceita o cor-de-rosa em sua vida, em cenas  extremamente divertidas somos conduzidos a enxergar o que existe de comum nos dois, a vontade de não estar sozinho, de se sentir parte de algo, conseguimos enxergar a mulher em Greta e o menino em Res.

o pai e mãe de Greta resistem, principalmente a mãe, até que ponto Greta dependia deles e eles de Greta? até que ponto precisamos da fragilidade do outro para preencher nossos dias e dar sentido a vida? não é fácil abrir mão da presença de alguém sem escudos e máscaras, alguém que é pura e consistente essência, uma criança.

esses pais tinham deixado suas vidas de lado para superproteger a filha, já tinham se acostumado em ter uma eterna menina em casa, e diante do vazio de sua ausência se deparam um com o outro, com seu tempo livre, com a possibilidade de se reencontrarem.

numa atmosfera de férias de verão, de músicas que combinam com a região e com as pessoas, em meio a água gelada do rio e o estalar de um pianinho rústico de madeira com teclas de metal, é um romance delicado, humano e de ótimo humor.


Serviço: AVES DE VERÃO (Sommervögel). Suíça, 2010. Direção: Paul Riniker. Com Sabine Timoteo, Roeland Wiesnekker, Anna Thalbach, Dorothée Müggler. 96 min.

11.5.11

Como mãe

- Mãe eu te amo mais do que uma magia!
A primeira vez que Clara se sentiu mãe foi na sala de parto, entrou sozinha, aliviada, aquele momento seria só dela, um momento de medo, de ansiedade, um começo. Para ela é engraçado ouvir histórias de outras mães, ela sente que a sua é a única que existe.
Estava lá, deixou tudo nas mãos dos médicos, decidiram por uma cesariana, confiou porque só podia confiar, era a primeira vez que via aquelas pessoas, era a primeira vez que estava numa sala de cirurgia, era a primeira vez que algo realmente importante e decisivo acontecia, ali, em sua barriga.
Foi tudo bem rápido, o ambiente era muito gelado e sentiu frio, sentiu a maior solidão do mundo, a maior que se pode sentir na vida. Foi assustador, até que seu filho nasceu. Nasceu. Nasceu! Ele era o único ser vivo quente naquela sala, um alívio, ele era vivo, quente, gordinho, seu rosto era familiar, foi tudo tão rápido, o que ficou foi a impressão desse calor que encheu o ambiente, da vida que voltou ao coração de Clara, que nesse instante se sentiu mãe. Naquele momento não duvidava de nada, apenas sabia que era e que podia com tudo e qualquer coisa. Essa energia toda transmitida por osmose, sim foi a primeira vez que experimentou isso, no toque das bochechas, como seu filho diria hoje, foi um beijinho de bochechas, todo o calor e vida do filho devolveu o calor e vida para o rosto, corpo e alma de Clara.