28.11.12

nenhuma certeza e alguma coragem



vou escrever um pouco em prosa, porque jogar conversa fora é bom, é vida acontecendo, é momento, é devaneio. vou tentar escrever o que tenho sentido ultimamente, sem garantias de ser exata, é tudo confuso demais.

saí de um tempo longo, lento e vazio, para um tempo fugaz, denso e leve, um tempo cheio de espaço, que não é vazio, que não é nada, mas é tudo.

essa coisa do tempo, já faz uma diferença tremenda, tudo chega e acontece num outro ritmo, parece que naturalmente o próximo passo é para acertar o rumo, acertando e desacertando sem paralisar, sem prender, sem dramas, seguindo.

os baixos vêm, mas passam mais rápidos, menos ásperos. dos altos só sei que têm se misturado um pouco mais com o cotidiano, confundindo o ponto de equilíbrio, estão voltando mais rápidos, passando por cima de tristeza, de culpa, de incerteza. no amanhã o que fica é a sensação de vida vivida e de tempo absorto.

o medo, o medo está me deixando solta, saiu de mim ao menos um pouco, está pesando menos, aparece de vez em quando pra lembrar que sou humana, que não é tão ruim ter alguns limites, que não é preciso ter tanta pressa, posso seguir aos poucos, talvez até pra pisar com mais leveza, seguir desfrutando.

nenhuma certeza e alguma coragem, vou indo.


25.11.12

arrebol


no sonho mais doce
volto no tempo
passo a mão na sua cabeça
enxugo suas lágrimas
te conforto em meu peito

o tempo e os sentimentos
têm dessas coisas
descompasso e ironia
o certo por linhas tortas
sei que o amor é bom demais
mas esse amor... dói demais sentir

tanto, que depois de tanto tempo
tantas tentativas
decidi
me desligar
e agora, desculpa...
mas parece que tudo se perdeu tanto
que não volta mais
não volta mais...



20.11.12

inversamente proporcional

quero fingir que está tudo bem
que passou
que sou forte
que a vida corre
e sou leve o bastante
livre o bastante
pra que qualquer brisa me leve

brisa leve...
eu preciso é de ventania
furacão
tempestade
devaneio desmedido
sem sentido

qualquer coisa de presença forte
que invada os espaços
sem perguntas
sem apreensão
temor
angústia

sabe essa angústia?
preciso enfiá-la numa mala
despachar pra longe
da minha vista
do meu alcance
para onde não estou
porque simplesmente não podemos mais estar no mesmo lugar

não quero mais
não é bom

as palavras vão ficando repetitivas
cansadas
tristes
fico enjoada delas
e a vida perde o gosto

fico aqui dizendo bobagens
gastando energia

quer saber?
eu preciso é de umas caixas
mudar as coisas de lugar
mudar de ideia
de atitude
deixar pra lá
buscar a passos largos
correr
sentir o fôlego carregado
o rosto corado
a vida pulsar

quero ser eu dividida inversamente proporcional
pelos meus dias
suspiros
sorrisos
lágrimas
e risos
risos vezes dois!



16.11.12

desmanchar-me

meu corpo ainda tem impressas outras formas
você chega de repente e desmancha todas elas
é confuso e tão bom

inesperado
sobressalto
é um prazer
que antes em tempo algum me permitia

o sono é suave e reparador
o corpo se entrega
deixa de resistir

parece que nada disso é inventado
preciso mesmo de um toque correndo pelas costas
envolvendo o ventre
o corpo
o sono
os sonhos
de entrega, de saudades...



12.11.12

perder pra achar


ilustração de Juli Ribeiro http://oafetoeacidade.blogspot.com.br/


as palavras passam e passam
sem ficar
as pessoas passam
e passam

o olhar é disperso
o ar é tenso e quente
inspiro e o solto leve
quero sair
da sala, do estar em mim
quero ser outra
qualquer
sem identidade e profundidade
quero ser rasa
e passar
passar
pelos lugares, braços, bocas e corpos
deixar de ser
criar vazio
pra preencher
me perder pra achar

ou só perder mesmo...



7.11.12

insônia

o sono escapa e me perco
me sinto tão solta
que bate um medo
de não pertencer a nada, a ninguém, nem a mim mesma

essa coisa de querer ter
acho que não é nada disso
a falta é de sentir-se envolta
por algo físico
ou subjetivo
para segurar os pés no chão
não deixar cair

a simplicidade é inatingível
o eco aqui dentro não deixa ser

é substituída por devaneios, alucinações, conversas imaginárias
os trejeitos ficam e a vida fica
resistindo deselegante
dolorida, nebulosa, arredia

volta... ao chão. 



2.11.12

álbum de fotos

  

é bem fácil cair na armadilha das fotos, não faltam meios, ferramentas, fontes...
os cadernos, não tenho mais, ficaram com ele
talvez fossem os mais perigosos
eram a composição perfeita do sonho que criei
consigo lembrar de algumas sequências
ainda bem não os tenho mais em mãos, poderiam ser meu fim, mais e mais uma vez

essa armadilha quase sempre funciona pra nos iludir sobre como poderia ser
como tudo era tão bonito, tão nítido, tão colorido
no nosso caso já não funciona mais
mesmo nas fotos consigo enxergar o vazio, a ausência, a falta no cotidiano
cotidiano que é vida seguindo
e mesmo nas ocasiões especiais, nas formalidades, a presença é pouca

olho buscando entender se posso estar errada
e a única coisa que enxergo de consistente é a minha história com o Caio, com minha família, amigos
festas de escola, aniversários, viagens, fotos dele distraído, tão lindo em cada fase

já vi muitas fotos, muitas mesmo
comecei a pensar que é possível perceber o quanto uma pessoa é amada, é enxergada por alguém,
pelas fotos despercebidas que são tiradas dela
nada de foto sorriso, pose, enquadramento
falo dessas que são tiradas quando a pessoa está caminhando de costas, ou conversando com alguém, meio torta e desfocada, tirada apressada pra não perder o momento, foto recortada, uma piscada, um sol que reflete de canto, a pele de encontro a uma roupa ou tecido qualquer
uma foto em que a pessoa sai tão bonita, porque mostra na sua composição o olhar amoroso e deslumbrado de quem a tira
sabe?

sei que nem todo mundo gosta de foto
eu mesma ando fugindo de coberturas fotojornalísticas a todo momento
tentando sair dessa obrigação visual com um mundo virtual
mas repara como todo mundo tem umas fotos dessas
de amor
divulgadas ou não...

sei lá qual a conclusão disso
só sei que senti um aperto no peito bem grande
meus olhos encheram d'água
e percebi que já vinha levando essa vida, que escolhi há pouco tempo, já há um tempão
e ter feito a escolha,
faz toda a diferença
parece que agora o coração pode contar com a liberdade de uma grande verdade
de que nada está fechado, definido, terminado
tudo é começo
e é só seguir em frente

1.11.12

angústia é bom sinal!

nem sempre angústia e sofrimento é algo ruim, pode ser que você apenas não tenha se acostumado, ainda ou nunca, quando vamos crescendo muitas verdades absolutas caem por terra:

1. ter família é ter mãe, pai e irmãos todos no mesmo espaço: muitas vezes somos muito mais família separados. eu só tive meu pai de verdade depois que ele saiu de casa. só pude voltar a ser amiga da minha mãe quando me mudei. hoje sou família de dois, muito mais inteira e completa do que quando só vivia a esperança de uma família de composição supostamente correta.

2. ser feliz: nossa ideia do que é ser feliz muda tanto, tanto quanto os planos que realmente serão um dia realizados. ser feliz nem sempre é tudo. ser feliz muitas vezes está ligado diretamente a algo que não podemos alcançar, colocamos nossa felicidade onde não podemos estar. colocamos essa ideia de felicidade como um objetivo, um fim, quando na verdade só chegaremos perto dela se enxergarmos todo o caminho, a importância de cada passo, como a vida é feita na verdade de muito cotidiano e se esse cotidiano não tiver espaço para pequenas alegrias, sutilezas, contato real, troca, carinho, cumplicidade, só estamos queimando tempo correndo apressados pra um destino improvável e fora do nosso controle.

3. a vida precisa ter sentido: que sentido que nada, a vida precisa é ser vivida. essa coisa de sentido deve ser invenção de algum utilitarista. o sentido afinal muda o tempo todo. pode ser que a vida precise sim é ter significado, significado para você, para as pessoas que gosta e isso independe de qualquer lógica, plano ou tentativa de controlar o destino das coisas.

4. só está bom se estiver perfeito: perfeição é uma bosta, não serve pra nada, quase sempre a obrigação de ser perfeito é o que nos trava, nos deixa covardes, medíocres, sempre esperando e esperando, enquanto o tempo vai se queimando sem enxergarmos tudo de bom que já existe, que já pode ser feito e mostrado para o mundo. perfeição é atraso de vida, é desculpa esfarrapada para nunca estar pronto. pessoas perfeitas, se existem, são chatas pra caramba.

5. ter paciência é bom: posso dizer que pertenço a uma família de tradição extremamente paciente, pessoas pacíficas, de ambição moderada pra baixo, um tipo de gente que você olha e pensa "gente boa" ou "boazinha". o "gente boa" tudo bem, é simpático, mas o "boazinha" é um horror, por favor não quero mais ouvir esse tipo de insulto. boazinha significa: aceita qualquer coisa, entende tudo, deixa passar por cima, é feita de boba o tempo todo, sempre passando a mão na cabeça e dizendo amém. tá, tá, mas chega, já deu, paciência demais num mundo injusto demais significa ser feito de idiota demais. então, levantar as mangas e esbravejar, mandar para os infernos, sair batendo os pés, gritar por seus direitos e não aceitar nada menos do que o justo é muito bom e necessário, faz bem para a saúde, autoestima e respeito próprio. então "gente boa" vamos tratar de brigar mais, falar mais alto e firme e fazer valer nossa presença no mundo.

Tudo isso, pra passar esse vídeo de um programa muito bom, que vive falando sobre todas essas coisas. Provocações:



E não, a gente não se acostuma, por favor não.