27.6.13

caminho


leonilson
 
venho caminhando para o trabalho
descendo uma avenida cinza de céu aberto
as vezes azul
com desenhos de nuvem
nos últimos dias carregado de chuva
hoje o cinza não era tão concreto
na dúvida se fica ou se alivia...
a música que toca nos ouvidos
triste
alegre
nos melhores dias deixa os passos leves
e o corpo a balançar
quase querendo dançar

sempre penso sobre a razão de tudo nesse horário
meio inconsciente
ainda tomada pelos sonhos da madrugada
ainda desentranhada da realidade

nessa hora em que o ar é mais fresco e ligeiro.


25.6.13

os pensamentos do coração


os pensamentos do coração, leonilson, 1988
 
quero encontrar as palavras
te mostrar...
mas sinto o quanto fogem

sabe quando a gente se espreguiça bem gostoso
com o corpo espalhando na cama

quando estamos num lugar quentinho
olhando as gotas de chuva no vidro da janela...

ou quando olhamos hipnotizados a brasa na ponta de um graveto
em gestos rápidos fazendo desenhos no ar, numa noite escura
já brincou disso quando criança?

deixo passar as imagens
fica essa sensação
de um calor embriagado por dentro
e da boca respirando sobre a pele

lembro da timidez que coloquei entre nós da última vez
da vontade de encostar no seu ombro
fechar os olhos
e esquecer tudo mais em volta

lembro daquele dia
que a gente se beijou pela primeira vez
e por alguns instantes tudo parecia tão fácil

saudades



24.6.13

virar pelo avesso e... continuar


arte de Jefferson John


há 1 ano e meio parece que apertei o botão "mudar", mudar tudo, tomei coragem, puxei o fôlego e fui em frente. mudar de casa, me adaptar a uma realidade totalmente diferente, terminar um relacionamento de 8 anos, não desistir da pós-graduação, estabelecer de vez minha autonomia, dar conta de muitas mudanças no trabalho,  dar conta de mim e da minha família, tudo isso sem deixar de acompanhar bem de perto o caminho do Caio, meu filho querido e tranquilo, que me deu a maior força, mas também passou por todo esse turbilhão e sentiu cada mudança. sinto como se tivéssemos passado por um furacão, cansados e cheios de arranhões, mas com o coração transbordando de vontade e sonhos. mais leves e cheios de vida.

sigo nesse caminho sem certeza alguma, confiante de que não tem mais volta. a cada passo, feito de questionamento e convicção, continuo acreditando que todos têm seu papel social e podem fazer valer uma vida cheia de significados, para as pessoas, para o amor e pra arte, pra cada palavra.

nesse percurso encontrei e reencontrei pessoas tão queridas, que me apoiam, inspiram e ajudam tanto, com a vontade de quem realiza seus próprios sonhos, cada uma a sua maneira. é com essas pessoas que escolho seguir, elas me fazem acreditar cada vez mais na vida.

aprendi sobre fazer escolhas e entendi mais do que nunca o quanto é importante dizer não, entender o que não quero mais ou nunca quis. aceitar, mudar e acreditar que num caminho sincero não se pode carregar peso demais. sem culpas e com o desprendimento de quem confia no acaso e no tempo, fiz escolhas importantes e, quanto ar fresco, quantos horizontes, quantos céus de estrelas, luas e  arrebóis se abriram. sério.

no sábado passei por um crivo importante, com um trabalho que é o retrato exato do que sou, uma mistura de coragem e medo, uma paixão pela poesia da Ana C., uma admiração sem tamanho por mulheres como ela e como a Letícia, que colocam sua voz no mundo, cheia de verdade, intensidade e lirismo. uma mistura de questionamentos, convicções em construção e desconstrução, uma vontade de ser e estar. uma confusão! uma declaração de amor a vida e a arte. incompleto, um grande quebra cabeça com algumas peças fora do lugar, como se tivesse vestido a verdade de tal maneira e não pudesse mais mentir, algumas peças ainda não se encaixam.

fui cheia de inseguranças pra apresentação, com as bochechas queimando e as mãos geladas. a apresentação foi péssima, mesmo, falei o que pude e o que deu, acho que mais ou menos como sou desajeitadamente sexy, fui desajeitadamente apaixonada na minha fala, o que acabou ficando um pouco engraçado, mas tudo bem! rs

bom, o que importa mesmo é o trabalho escrito, ainda bem. e na hora dos comentários e perguntas da banca eu estava bem mais calma, quando a primeira professora, Kátia Kodama, começou a falar eu já conseguia respirar normalmente e pensar com clareza. sua voz era num tom suave e seu agradecimento por ter sido apresentada à Ana pelo meu artigo me encheu de alegria, ela foi muito cuidadosa em seus apontamentos, disse que estava tudo ali no meu texto e que só faltou um alinhavo entre algumas ideias. o segundo professor, Roberto Coelho, a sua maneira foi muito elogioso e perspicaz em seus comentários, disse que me perdi quando me apaixonei pela Ana. ele tem toda razão. minha orientadora, Cláudia Fazzolari, com todo carinho de sempre reforçou como o mergulho na poesia da Ana e algumas escolhas de estrutura acabaram tornando esse alinhamento mais difícil, lembrou ainda que no meu projeto inicial essas intenções já apareciam com clareza e que nas minhas anotações no percurso eu apontava nessa direção. pra minha alegria maior os três reforçaram os pontos fortes do trabalho, o potencial para continuar e até se ofereceram interessados em me orientar num mestrado com o maior entusiasmo e várias ideias. já pensou!? não, não tinha pensado...

resultado: fui aprovada sim (ufa! eba!), mas pra versão final devo resgatar esse alinhavo entre os elementos do meu artigo, a Ana, a Letícia e o Bruta. tá tudo aqui já, espero conseguir passar pro papel com mais clareza.

e quer saber, to feliz pra caramba, entendo mais uma vez que não adianta forçar ou moldar um caminho, tenho o meu tempo e jeito, que as vezes é todo ao contrário, entender isso faz parte de todas essas mudanças, descobertas e presentes que desencadearam nesse percurso.

esse grande caos foi e é tão necessário, o mergulho nessa poesia aguda e provocadora não me rendeu apenas um bom artigo, mas uma reflexão que nunca tinha enfrentado na vida, um salto pra questionamentos que não faço ideia de onde vão parar, talvez nunca parem...

eu sabia
que virar pelo avesso e continuar
é uma experiência voraz

"olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas"

Ana Cristina Cesar
 
"a Ana rasga, ninguém passa de raspão por ela, a poesia dela abre, fundo, abre até o ponto em que não se sabe onde ficou o anzol (…) a Ana consegue ser absolutamente universal e delicadamente particular, mas é preciso tentar, tentar além da Ana, tentar através da Ana, porque talvez assim, e só assim, seja possível segurá-la no salto ou segurá-la no ar."
Letícia Simões



14.6.13

mudar



fotos da minha coleção de céus


hoje acordei com vontade de mudar muitas coisas
mudar a vida, o tempo, o lugar, o caminho
vontade de não ser a mesma todos os dias
de chegar em lugares novos e diferentes
fazer o inesperado

olhei para o céu que está azul acima das construções metalizadas
olhei pra uma brecha de verde entre o cinza
o ar está fresco e ligeiro




13.6.13

tristeza não tem fim felicidade sim


Ana C., antigos e soltos - poemas e prosas da pasta rosa
 
cansada da tristeza sem fim, começou a vasculhar entre suas coisas, devia estar em algum lugar, entre os livros velhos, nos e-mails lidos, nas caixas de recordações, no fundo do guarda-roupa.
a bagunça e o emaranhado eram tão grandes.

a sua volta, mais ainda por dentro.  os olhos ardiam tanto e todos os dias estava tão atrasada para todos os compromissos.

deitou na cama, foi desamarrando a roupa, chutou os sapatos pra longe, abriu os braços, olhou para o teto, procurou uma fresta de céu na janela, fechou os olhos. uma respiração lenta e profunda. colocou as mãos na barriga por dentro da blusa, a pele estava gelada e fina. sentiu os movimentos por mais alguns minutos, um vai e vem quase calmo, ainda ofegante.

acordou um tempo depois. tudo ainda estava lá. nada.


7.6.13

exatamente aqui


vou deixando todos os acessórios de lado
me desligando dos aplicativos que ainda restam
sinto o corpo mais leve
olho no espelho e as linhas que me contornam são suficientes
o cabelo ainda cai ruivo sobre as sobrancelhas
a barriga, a pele branca e as pintas que me desenham são suficientes
as formas irregulares não me incomodam mais
não me sinto feita de carne
me sinto feita de tantas coisas
uma nuvem de histórias, sensações e sentidos
como se essa nuvem desfizesse certezas
e em sua névoa acabasse com o peso
os pés no chão gelado saem leves
volto a me sentir bailarina
as mãos se alinham com os braços em movimentos fáceis
conduzidos pelas notas de uma música quase clássica
conduzida por uma voz doce e trêmula
cheia de defeitos... linda, linda...
é natural que seja assim você aí e eu exatamente aqui
exatamente aqui

ponto final

tive que tentar de tudo, terminar, começar, brigar, depender, sufocar, fugir, tudo e mais um pouco, toda e qualquer distração, algumas simples, bobas, outras tão complexas só pra perceber quanto sou pequena ou forte.
tudo, tudo, tudo pra entender que preciso estar sozinha, sou uma e não sou parte de coisa alguma. ponto final.

sentir subjetivo ou... BLISS


desenho de Juli Ribeiro http://o-capuccino.blogspot.com.br/

sinto algo bem forte e indefinido, é misturado com medo, é bom, é estranho. meu corpo treme, não posso controlá-lo, ele sente forte e como bem entende, numa tempestade, numa onda, numa brisa. imagino minha vida daqui pra frente, sonhos e devaneios tomam conta da imaginação... vejo sorrisos e brilho nos olhos, seus, meus, vejo suas sobrancelhas serenas e firmes, escuto uma voz carinhosa e doce. puxo a imaginação, lembro da realidade em volta, de todo o tempo em volta e no caminho, pra um passo de cada vez. o medo me puxa ao chão.

o impulso me leva a querer mais, ser mais, te falar, te mostrar tudo o que passa aqui, a realidade não é suficiente, minha voz que sai incerta e trêmula não é suficiente, tento lembrar que é assim, um sentimento de urgência, mas está tudo bem. as histórias se fazem assim, um momento e mais outro, um de cada vez, não é preciso pressa, não é preciso cumprir todos os itens, a incompletude é sinal de saudade, saudade sinal de afeto, afeto sinal de amor...

intensidade química? não sei, acredito mais na intensidade provocada por você.