12.10.16

cambaleia




a linha do apaixonar-se é uma
cada um tem a sua
um passo e outro
volta, fica com medo

a linha imaginária de todas as coisas
das curvas
da pele
da garoa e da chuva

a volta na linha
invertida da cama
levanta, deita e beija

não sei pensar sobre o não
sobre o muro e o suspiro

a linha das imagens
se formam nas mãos
nos dedos
nos abraços
nos cabelos

pisa leve sobre a linha
cambaleia pra lá e pra cá



29.9.16

uma conversa sobre amoras e caixa d'água

por essas semanas, já perdi a conta de quantas, tive uma briga muito triste com meu pai... escrevo aqui meio que conversando sozinha, porque não sei o que fazer com a angústia que aparece de tempo em tempo.

bate uma preocupação, com a saúde e as coisas práticas da vida, que são bem difíceis, mas também de ficar imaginando o que se passa na cabeça dele, volto à história do quebra-cabeça e fico tentando encaixar uma peça e outra, tentando imaginar como é ser um homem como ele, num mundo como esse. tento entender de todo jeito o que vai levando a gente a se proteger tanto, tanto a ponto de machucar o outro... alguém que só devia fazer sentido amar e cuidar.

um homem carrega sua história, sua infância, carrega as diferenças e rupturas com seu pai, a mágoa que ficou da sua mãe, é triste pensar que só sei essa parte da história, será que não teve nada de bom dessa fase? lembro de olhar a foto branco e preta dos seus vinte e poucos anos, e das lembranças em botes de plástico amarelo e azul, no meio de rio e de muito mato, e enxergar uma alegria ali, alguém que tá sempre procurando o seu lugar e seu caminho. deve ter tido amor pra chegar até ali. e de lá pra cá uns desencontros, alguns ainda ficaram próximos, outros tão longes. eu não tinha essa intenção. nem entendo porque não consegui evitar, deixar pra lá... relevar o que é distante demais, guardar uma ligação, um café da manhã apressado, uma conversa sobre amoras e caixa d'água.

não quero me explicar pelos motivos todos culturais, sociais e políticos. esse texto é pesado e o que escrevi no dia do desabafo, cheio de impulso e choro, já é difícil o bastante pra processar. fico agora com o que ainda posso sentir, essa vontade de amornar a tristeza pra ir desfazendo os nós, essa sensação de o que os homens não tomam coragem de olhar e fazer, o tempo faz o trabalho de ir levando e levando... não sei bem pra onde.

e vou ficando sem resposta, nesse silêncio que se estende indefinidamente. e só posso achar que esse tempo e esse vazio, assim como tantos já impostos, só podem fazer parte de alguma lição que teimo em não aprender.


17.9.16

uma coleção de céus, noites e mares


ilustração da Juli Ribeiro


tem uns momentos da vida que tem uma beleza, uma poesia, são meio como aquela cena de um filme que  te faz sentir bem e dá uma nostalgia quando lembra

dá vontade de guardar numa coleção, uma coleção de céus, noites, mares, estrelas, árvores e lugares que nunca estivemos antes

um lugar longe, longe... e aquele lugar de todo dia, que de repente se transforma em outro

montanha, muito mato, uma subida íngreme, mão puxada pelas crianças, mirante, carona de trator, terra vermelha e um céu de estrelas

areia branca e fresca, lua amarelada tão perto do mar tocando a nossa pele, não parece noite, lençol pra proteger do vento que sopra como uma respiração lenta no pescoço

um bar, uma festa, uma sala de estar ou uma avenida no centro de São Paulo, uma brisa, ter que segurar nos braços da cadeira, na sua mão, pra não flutuar

tem esses momentos, que quando você tá vivendo sente que cada minuto é único, que precisa se descolar do corpo pra assistir tudo enquanto acontece, pra além de sentir o gosto e a sensação, poder ver a beleza da fotografia, da luz, do reflexo, dos movimentos

a gente nunca guarda o suficiente, o estalar das milhares de pequenas folhas secas, o céu entre as frestas da copa das árvores, olhar a noite por cima da marquise, apoiar a cabeça e por um instante esquecer de tudo mais em volta

esses recortes não são feitos só pelas coisas, pessoas ou lugares, são feitos de uma vontade, de uma mudança de ar, uma decisão, da passagem de um ciclo pra outro, de aceitar uma tristeza que passou e enxergar uma alegria que é possível

nessas horas perdemos a mochila, as coisas, o celular, as chaves, uma blusa, um brinco, perdemos a falta do chão e o medo, nos entregamos à vontade de não estar sozinhos na beira da estrada, entregamos um tanto da gente pra se fazer poesia...

13.9.16

bloguinho-diário-desabafo

retomo as origens desse bloguinho-diário-desabafo com postagens impulsivas, longas ou rápidas, pra fazer o tempo passar, esse remédio necessário, que gira a roda dos acontecimentos e força a mudança dos sentimentos.

dor não devia poder ser escrita, pra escrever é preciso sentir de novo e de novo, num exercício masoquista e obsessivo, nessa ilusão de ir até o fim, pra acabar.

o passar dos dias sempre me carrega e na ironia dramática, na inversão da rotina, nos contos sobre bailes russos e caves cheias de salitre musgoso me distraio. pelo menos por agora, deixa o sentido de lado um pouco, esquece o passado distante, mais ainda o próximo, pra sobreviver a todo esse emaranhado.

dor escrita, noite mal dormida, dia de sol, vestido fresco, sandálias, abraço de filho, almoço em boa companhia, risadas ao fechar das portas. uma segunda-feira cinzenta não resiste até o final, não vence a noite, a terça e a nossa teimosia.

10.9.16

famílias, atropelos, mentiras e desencontros

as últimas brigas e rupturas foram muito tristes e desgastantes, não consigo entender bem o que tá acontecendo. parece que até um certo ponto da vida tudo está sob algum controle, acreditamos de verdade que se somos bons, se cuidamos das pessoas que amamos, tudo vai ficar bem...

sempre achei que era essa minha natureza, sempre me senti muito mal por chatear ou decepcionar alguém, gastei alguma, muita energia mantendo as pessoas por perto, costurando uma história cheia de retalhos e tentando lembrar de cada parte boa, cada parte bonita, fazendo tudo parecer certo pra ideia de família que tenho na cabeça.

talvez meu enorme talento seja realmente me enganar, talvez a verdade esteja o tempo todo na minha cara, e tudo, tudo mostra a verdade, tudo o que está ruindo em volta e eu não consigo nunca enxergar...

procuro a verdade, procuro em mim, nos outros, tento me convencer dela... e a cada esquina, sem aviso prévio algum, tudo se acaba, desmorona.

sempre me confundi com as datas desse período, acho que uma vez ou outra tentei lembrar com a minha mãe, não adiantou muito. a gente tem um jeito impulsivo, emocional e confuso parecido pra lidar com essas coisas. ou talvez, tenha sido mesmo o período mais difícil das nossas vidas, e dói demais lembrar.

(como agora talvez, que tava andando distraída e do nada fui atropelada por uma briga sem pé nem cabeça)

só sei que sempre fui uma menina cheia de sonhos idealistas, sempre fui, fui criada sem ambição material alguma e um bom tanto solta das questões práticas, da vida real. não to reclamando, gosto disso, sigo em boa medida assim... e a parte das questões práticas, a necessidade de criar o Caio sozinha me fez dar um jeito, to indo mais ou menos bem nisso, acho.

e acreditava nos meus pais, via a minha mãe triste, doente, lembro de ter uns 12 anos e tentar ajudar a minha mãe a não ficar tão triste, a ver o que tinha de bom na nossa vida e a tomar coragem pra mudar o que fosse necessário, se separar do meu pai se fosse o melhor pros dois, se fosse o melhor pra ela principalmente.

via meu pai nervoso e distante, muitas vezes alto de bebida, achava muito estranho ele passar tantos dias, semanas fora de casa e voltar, falar algumas coisas aceleradas caindo meio de para-quedas e depois de um tempo ir embora de novo...

na cabeça deles, eles estavam nos protegendo assim, posso entender isso, sei que posso. sou adulta agora, sei de toda angústia, responsabilidade e peso que tá envolvida em tentar manter uma família de pé. já passei por relacionamentos e separações difíceis também, sim eu posso entender.

essa parte das mentiras mesmo, também poderia ser elaborada como mais um retalho pra costurar na história da nossa família, poderia sim.

mas quer saber, não estou conseguindo mais, não consigo ser a responsável pra que fique tudo bem. essa briga de hoje me magoou tanto, fico lembrando dos flashes das coisas absurdas que ouvi e me assusta pensar que é isso o que meu pai pensa de mim...

to muito, muito cansada de ser atropelada sem mais nem menos, de ouvir ironias agressivas e julgamentos, de acharem que sou o oposto de tudo o que quero e acredito. não consigo admitir, não posso e não quero, não consigo mais, que me digam como tenho que viver minha vida, no que devo acreditar ou pensar. não suporto esse tipo de julgamento de quem pega um recorte da sua vida (o recorte virtual é o pior de todos) e desconsidera tudo o mais que preenche dias e dias, noites e noites, anos, de medos, sonhos, escolhas, decisões, alegrias e tristezas e tantas coisas mais. pior, vindo de uma pessoa que me ama, e que pelo menos nesse caso em particular, deveria sim respeitar e se preocupar com meus sentimentos.

de repente, tudo que vivi é uma história mal contada da minha imaginação. não teve mãe por anos e anos triste e tentando de todo o jeito cuidar de todo mundo, não teve os buracos sem explicação alguma de ninguém, não teve outra família que a gente nunca soube e só descobriu quando meu pai estava quase morrendo na cama de um hospital.

ah, e de repente fico sabendo que to envolvida com um monte de coisa ruim (sou só uma ditadora-esquerdista-capitalista-filha-da-puta), to seguindo o caminho do mal... sou política demais, minhas opiniões são agressivas e greve é coisa de capitalista que só pensa em dinheiro... branco também sofre racismo e os empresários ricos são as melhores opções pra política, pq quem é milionário e mora em mansão não vai roubar o povo... mulher que cansa depois de mais de 20 anos de um casamento difícil e pede a separação, na verdade expulsou o homem pobre coitado de casa, e a outra mulher que teve que pedir pensão na justiça pra sustentar a filha também não entendeu a situação e foi cruel. e é bem razoável chegar na casa da sua filha mais velha, que sempre segurou a barra de toda essa família e ainda cria um filho sozinha, e soltar tudo isso com a maior arrogância e ironia, pq é mesmo engraçado tratar mal a sua filha que sempre fez o maior malabarismo pra tentar entender tudo isso e continuar por perto.

sinto, sinto muito por cada briga, por cada distância, porque dói demais e meus olhos e garganta doem absurdamente porque não consigo parar de chorar... mas se a versão que tenho é a do outro lado, é porque esse lado esteve cada dia, em cada situação boa ou difícil, do meu lado, com suas qualidades e defeitos, as vezes do jeito melhor ou pior, mas nunca, nunca tive dúvida de que se eu precisasse seria a minha mãe a primeira pessoa a chegar. 

e isso não diminui em nada o meu amor e o meu cuidado, todo o que pude até aqui, com meu pai... com esse outro lado que não dá o braço a torcer nunca, que se machuca e se maltrata, se cuidando mal e bebendo demais, que quase morreu de tanto fumar. que ensinou um monte de coisa boa e diferente pra gente, e que passou um bom tanto desse gênio difícil que temos... talvez um tanto desse orgulho que foi tão alardeado nessa última briga.

você construiu todo o seu caminho agarrado na sua autonomia, nasceu sozinho e vai morrer sozinho, como sempre repete a cada discussão... 

(engraçado é que a sua mãe te carregou 9 meses como todas as mães fazem e deve ter abraçado e cuidado ao menos um pouco, o suficiente pelo menos pra você crescer e sobreviver bonito e forte, né?... e acho que ninguém acharia mal morrer com a cabeça tranquila no travesseiro, sabendo que seus filhos e algum amigo, onde quer que estejam, alguns por perto ainda quem sabe, te desejam bem e querem cuidar de você... será que é tão errado ou idealista desejar isso também... e ainda ter a humildade para admitir? não sei)

bom, o fato é que do jeito que pude to aqui, sou uma adulta agora, e talvez o que a gente tenha mais forte em comum, seja exatamente essa necessidade por autonomia, por liberdade... e exatamente por isso não vou aceitar mesmo, muito menos com brincadeiras irônicas e desrespeitosas, que ninguém, ninguém, até mesmo você me diga como devo viver... não consigo mesmo. 

ah, tem uma técnica que é muito boa, é simples, mas exige um pouco de esforço, sempre tento com o Caio pra tomar cuidado e entender o que tá acontecendo com ele, pra saber como ele pode estar se sentindo... tenta lembrar de quando você tinha 30 e poucos anos, de quando você tava dando um duro danado trabalhando, talvez tentando estudar alguma coisa que gostava e ainda sustentando suas filhas pequenas... pensa em como se sentia e o que acharia se alguém com ironias ficasse te provocando e questionando suas escolhas e crenças... essa sou eu hoje pai, e sem "parceria" pra dividir nada, acho que dá pra entender que toda ajuda, respeito e consideração seriam muito, muito importantes em qualquer conversa ou situação.

e depois de tudo que aconteceu, do jeito mais atropelado e confuso possível, com verdades saindo de passados inimagináveis e complicados... só posso desejar que você fique bem, que do jeito que for possível sempre vou desejar isso.

* e cada vez que penso em tudo isso dói tanto... que negócio horrível a gente faz uns com os outros.


12.8.16

equilíbrio-desequilíbrio


"Diálogo de surdos, não: amistoso no frio
Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento
a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum
segredo."
Ana C.


num instante sinto uma tristeza e não quero que seja minha... penso vagarosamente como tudo está passando, como cada coisa está no seu lugar, no seu canto, que não existe nenhuma novidade e essas distâncias eram de se esperar. eu já sabia, lá bem no fundo não acreditava em nenhuma mudança, essas coisas não tem muita explicação mesmo, ou são ou não são.

as vezes estamos de um lado, as vezes de outro, nenhum dos papéis desse desencontro é agradável, vamos oscilando na vida pelos dois, nos começos ou nos desfechos das relações, seguindo sem poder evitar nesses passos no escuro. esperando ou nos surpreendendo quando algum encontro é possível por um momento, por algum tempo...

sinto essa tristeza sem poder evitar, não quero guardá-la no peito e nem segurá-la nas mãos, quero que ela escape como o vento, passando e passando por mim, frio sim, mas passageiro.

quero olhar pra uma outra direção, como quando olhamos uma estrada de uma viagem desconhecida, de imagens com campos, nuvens e céus num dia ensolarado, em que o movimento natural e inevitável de todas as coisas abrem horizontes, renovam esperanças, procuram saídas dos sentimentos que nos prendiam.

fico na dúvida se esses últimos anos fizeram algum sentido, abri algumas portas, nem todas tive escolha, essa mescla de aceitar o que cada dia traz e buscar o que realmente quero causa um equilíbrio-desequilíbrio tão tênue.

não quero me envolver com nada que cause sofrimento ou angústia para os outros ou para mim, não quero ter que pedir para ser amada, não quero explicar porque sinto ou não sinto...

afinal, a gente só sabe o que quer ou não, no momento em que se depara com todas essas formas que as entranhas dos sentimentos podem tomar.


7.8.16

direto para os poemas tristes...





sentir a tristeza, mas não se deixar ser a tristeza... essa que pega num desencontro de ombros numa tarde fria, que do nada insiste em apertar os olhos, o coração, que não conhece motivo, sentença, razão. (19/05/16)
...

perdi o fio da meada nessa vida-repetição, dos sentimentos, da razão, até mesmo das coisas cotidianas, de acordar, dormir, dos sonhos... os últimos  são de muita angústia, muito choro, pessoas confusas em volta, pessoas que desestabilizam de alguma forma meus sentimentos, que tem o peso de um mundo nas costas e um monte de deveres com os outros, todos os outros, mas não tem noção de que sempre acabam me machucando, passando por cima dos meus sentimentos. (13/06/16)
...

não conseguia conversar de verdade, tentava me proteger de seus olhos, que sempre pareciam ansiar por algo que eu não tinha, me sentia vazia e sem sentido.
olhava e olhava em volta para todas aquelas pessoas, com uma mistura de admiração e medo, não podia explicar. não podia dizer-lhes o que realmente se passava na minha cabeça, meu corpo não respondia mais e por mais forte que fosse minha teimosia, nada daquilo estava fazendo sentido, e o pior, nada mais em volta, dentro ou fora, fazia sentido também.

sentia um aperto tão grande no peito e nos olhos, as lágrimas saiam espremidas nos cílios, como podia explicar alguma coisa, logo eu. (20/06/16)
...

um beijo começando pelo canto esquerdo da boca, caindo pelos lábios até sentir o molhado da saliva, da língua, o rosto cada vez mais perto.
algumas vezes a pele parece que adere, que se aquece ao toque da outra.

um intervalo para o tempo e para os pensamentos, uma escolha, uma condição. (30/06/16)
...

achava que ia te convencer, continuar existindo, ilesa, imune, livre de qualquer coisa que pudesse me prender...
tem um tipo de prazer que é dolorido e quente, de desejos protegidos da vida comum. numa intimidade provocada, que nunca se concretiza até o final. (sem data 07/16)
...

tem um mecanismo que faz chegar no limite do corpo, do amor. quando bate uma vontade de chorar que nada segura. quando o corpo estranha e reage, pra se defender depois.
passaram tantos dias e semanas, alguns meses, para quase voltarmos ao mesmo ponto, mas o recuo é concreto e demais, não pude voltar.
e essa necessidade de provar até o final, até o último suspiro de um sentimento sufocado, que vai sufocando e sufocando pelos medos, pelas fantasias das possibilidades mais remotas e irreais, afastadas de tudo, afastadas de mim e da minha vida...
porque só devo viver por esse instante, ser esse momento encaixotado... não existe tempo, nem espaço e nem mulher real, que tem mau humor, que precisa de cuidados e de alguma ajuda com qualquer coisa da rotina...
essa mulher de carne e osso não serve pras histórias e rompantes, que fazem parte só de uma lembrança. (07/08/16)


5.7.16

simples coisas




todas essas coisas simples
vão pelo tempo
pelos dias
os sentimentos escorregam em todas elas

guardo um sorriso
um retrato bonito com o reflexo do sol
um cumprimento de abraço demorado
tantas palavras,
que tentam e tentam
explicar o que se passa por dentro
e em volta...

minhas mensagens
mais simples e curtas
cuidam de mostrar o amor
que ainda é possível
e não deixou de existir

esse amor que é simples

deixo o tempo seguir
as pessoas se despedirem
os sentimentos se tornarem outros

não existe escolha

do jeito que permite a vida
sigo gostando, cuidando e apertando sua mão
com carinho

a saudade é essa
das simples coisas
que doem no coração

28.6.16

Adilson


Rui, minha mãe, Adilson e eu

há cerca de dois anos fiz um texto aqui para um amigo da minha família, o Rui. estávamos há muito tempo sem nenhum contato, quando soubemos de sua morte senti uma tristeza e logo uma grande nostalgia por lembrar dos momentos que ele fez parte da nossa vida, das histórias que ouvimos sobre suas viagens, resgatamos fotos e lemos muitos relatos de amigos saudosos de longe, de perto, de vários momentos, que fizeram bonitas homenagens...

a situação agora é diferente. perdemos um amigo que estava distante também, que não deixou de ser e representar todos esses momentos e sentimentos que fizeram parte da nossa vida... acontece, que dessa vez ficou uma tristeza dura, pesada e fria, no lugar dos relatos saudosos, um grande silêncio, no lugar das histórias de vida, um quebra cabeça difícil de montar, que por mais distantes que estejam as peças, nada é suficiente para explicar como o nosso amigo passou seus últimos dias tão sozinho. mas tão sozinho, que morreu na rua de frio.

o Adilson foi amigo dos meus pais nos anos 80, nesse período eles moraram algum tempo juntos, eu era pequena e numa casa dividida entre alguns amigos, acabava sendo um pouco cuidada e criada por todos. foi dessa fase que temos algumas das fotos mais bonitas do nosso album de família, aquela família lá do começo. um jovem casal, viagens de fusquinha, muita música na vitrola da coleção de vinis, minha mãe depois com um barrigão esperando a Juli, acampamentos na praia e passeios no parque pra andar de bicicleta...

depois desse período, reencontrei o Adilson só mais uma vez, por volta dos meus 15 ou 16 anos, ele passou alguns dias na nossa casa perto do natal, era muito gostoso conversar com ele, percebia no seu olhar um encantamento e identificação, que eram recíprocos, não parecíamos estranhos, ele me olhando como uma moça que tinha crescido rápido demais, buscando uma conversa que me interessasse, eu olhando curiosa, como se ele fosse um estrangeiro, trazendo em sua bagagem todo um mundo distante, diferente e cheio de histórias, músicas e lembranças resgatadas lá do tempo que eu era pequena.

lembro do jeito como ele se sentava e mexia as mãos com suavidade, nessa fase suas mãos já tremiam um pouco, lembro de ficar ouvindo sua conversa com a minha mãe na mesa da cozinha, e de como ele cantava fazendo imitação da voz e do jeito dos artistas. o ponto alto era quando imitava o Michael Jakson ou a Madonna, fazendo o efeito dos sons e gritinhos com muita irreverência e humor, dando umas risadas depois. queria poder lembrar mais...

a última vez que o Adilson procurou a gente, eu não morava mais com a minha mãe... a nossa família agora é completamente outra, tivemos que fazer uma série de rearranjos físicos e emocionais pra todo mundo ter seu espaço e ficar bem. meu pai se mudou pra Atibaia e eu tenho minha casa com o Caio na Zona Oeste.

queria que ele pudesse ter aprendido o caminho da minha casa.

minha irmã e mãe fizeram o que puderam para tentar ajudar. era o Adilson sim, com seu jeito e sua bagagem, agora um tanto mais desgastada, machucada. as mãos tremendo muito. cheio de remédios pra depressão e parkinson. por algum motivo, certamente injusto e arbitrário, deixou de receber seu auxílio do INSS e estava com um processo para tentar mudar isso. morou muitos anos no Rio e estava há algum tempo tentando se resolver em São Paulo. soubemos depois de sua morte, que ele ficou algum tempo na casa de um tio e depois de um desentendimento ficou desabrigado. meu pai contou que a relação com sua família sempre foi muito ruim, ele nunca foi aceito por ser gay.

ele chegou a iniciar um acompanhamento num Caps - Centro de Atenção Psicossocial e foi encaminhado para um abrigo em São Miguel, pelo que a assistencia social explicou é muito difícil conseguir um abrigo na região central, o que dificulta muito o deslocamento de quem tem uma rotina de vida nessas áreas, sem contar que os abrigos públicos não são nada acolhedores, são verdadeiras zonas de guerra. Ele foi pra lá alguns dias e uma noite não voltou mais.

algum tempo depois, recebemos a notícia, o Adilson morreu, ele foi uma dessas vítimas "em situação de rua" que morreram de frio em São Paulo. ele teve uma convulsão e uma parada cardíaca causada pela baixa temperatura, estava sozinho e completamente desamparado. ninguém merece uma morte horrível assim, ninguém.

agora tudo parece muito estranho, muito estranho. não consigo compreender, aceitar, como uma pessoa que fez parte das nossas vidas passou por isso e não pudemos evitar, estar lá, procurar se realmente não tinha algum outro jeito, qualquer coisa que não levasse a esse desfecho. fico pensando como o Adilson, assim como tantas pessoas que estão por aí nas ruas, tinha um círculo de laços a sua volta, que foram se desfazendo e se perdendo... me pergunto, a que ponto chegamos, e como podemos viver uma realidade em que isso acontece... e em que a vida não é nossa prioridade máxima.

sei que um problema estrutural está acima de tudo isso, saúde e assistencia social públicas tão precárias e insuficientes, uma política de aposentadoria e auxílio-doença completamente cruel e injusta, uma vida de sofrimento e trabalhos precários. ele era pobre, negro e gay, fico imaginando o tamanho do racismo e homofobia que enfrentou ao longo de toda sua vida, em períodos em que essas lutas contra esses preconceitos eram tão veladas e proibidas.

quero muito que a força da nossa organização um dia seja suficiente pra mudar a lógica dessa sociedade que produz tantas mortes e sofrimentos. mas por hoje, queria mesmo, que a ligação entre todas as pessoas que passaram pela vida do Adilson não tivesse sido tão insuficiente, para que pudéssemos ao menos ter tentado, entre amigos, com mais forças e condições, um outro desfecho, um não desfecho, em que tivéssemos tempo pra mais alguns reeencontros.

existem hoje em São Paulo mais de 15 mil pessoas em situação de rua, cerca de 500 são crianças, 70% se declaram não brancas e a maioria são homens. só no mês de junho foram registradas 25 mortes, quase sempre por problemas respiratórios ou cardíacos, que se agravam com as baixas temperaturas. o sistema público de saúde só permite o cadastro e acompanhamento médico para prevenção e tratamento de doenças comuns e/ou crônicas com a comprovação de residência fixa. muitas dessas pessoas tiveram emprego, moradia e familiares e estão passando pelo período mais difícil e de extrema pobreza de suas vidas. a taxa de desemprego no Brasil está em 10,9%, são 11 milhões de pessoas sem trabalho, a previsão é de que esse número chega a 14 milhões até o final de 2016.

a tristeza é fria como as noites mais geladas de São Paulo.

relato do jornalista Mario Mendes sobre o Adilson: "devia ter cuidado melhor dele".

15.6.16

quase de brincadeira




sigo com meus sentimentos fragmentados
carrego todos os seus pedaços comigo

de uma decepção
de um momento especial

vou guardando as sensações
e vou sentindo uma a uma, confirmando

dou uma olhada rápida antes de pisar
quase penso em parar, voltar

dá medo pular
mas pulo

dá vergonha dançar
mas balanço os ombros
movimento disfarçado, quase de brincadeira
e um abraço quando o rosto queima um pouco além da conta

as conversas se misturam
é estranho falar tanto, quase tudo de repente
tudo o que vai passando na cabeça
acompanhando a letra das músicas

seus olhos seguem os movimentos
suas palavras brincam com a confusão da embriaguez
os ombros recolhidos ficam amassados com o peso do meu corpo
que vai procurando se encostar de cima a baixo
no limite das roupas

a voz aos poucos fica sonolenta
um pouco mais baixa e perto do ouvido
o toque dos dedos nos lábios confirma o que se quer dizer
perpassando por baixo do tecido da camiseta

frio e calor
tudo em volta se afasta
fica a sensação quente
de um corpo pro outro
e da saudades de logo mais, que se antecipa um pouco...
e passeia pelos pensamentos da tarde


29.5.16

boa noite...





queria te encontrar,
deixar o tempo correr um pouco
sair do espaço vazio em que nos colocamos
deixar desaguar qualquer sentimento

queria tempo
você, eu
um olhar
qualquer palavra que dissesse alguma coisa de dentro

é estranho me sentir tão por fora,
distante

e o mal entendido tratou de nos desencontrar
os dias todos do feriado se transformaram em intervalos
com hora de começo e de acabar
quase um relógio de ponto
pra trazer ao descanso a sensação fria e vazia do controle cotidiano

boa noite
não respondo mais
como posso...
como posso insistir, brigar, sentir tudo sozinha

seus medos trataram de me convencer
nada mais importa... tudo bem.

23.5.16

a gente gosta




gosto, gosto e o impulso é querer
e buscar esse gostar
uma vontade de ficar, tocar,
encostar o corpo e sentir perto

é estranho não querer
o querer e o gostar
já sentimos tanto medo
um bom tanto da timidez toda é só medo

e não consigo recusar
essa sensação que chega
que foi num susto
tomando espaço
e precisa existir

fui me dando conta
na mistura dos acordes
do acordeon com um beijo
nos passos largos até a Av. São João
aceitando os gestos sutis
o entrelaçar dos dedos
o emaranhado das pernas
a vontade
nas notas disfarçadas
de olhares e sorrisos oblíquos
insisto e fico
no tempo recolhido
no intervalo de todas as coisas
de todos os outros

só por mais um momento
e outro, e outro...



19.5.16

garoa fina




a sensação de um beijo
pequeno, doce, fugaz,
feito de medo,
é concreta e fria.

nunca, nunca mais, vou esquecer
não quero reconhecer
não quero mais sentir.

dá medo, dá medo sim
perceber que o amor não bastou
que o desejo não é suficiente
que acabou.

e fica um vazio nesse espaço
entre o seu ombro e o meu,
que não podem mais se procurar,
se encostar,
buscar qualquer conforto.

é vazio esse espaço
é frio como a garoa fina
de um dia cinza em São Paulo...


16.4.16

como pode...

como  pode ser tão injusto o amor, que junta pessoas diferentes, com suas vontades, maturidades, tempos, expectativas,  sonhos, desejos, tudo diferente,  e que por um instante se encontram, se buscam, se atraem, se extasiam, se confortam e se divertem, para no outro instante voltarem aos seus percursos solitários em direções opostas, incompatíveis e egoístas.
e todas as coisas em comum vão se acabando, tudo começa a desaparecer, a vontade, a presença, a voz, a pele, as palavras,  os acordos perdem a importância e se desfazem, os olhos ficam baixos e os corpos distantes.
como é triste um amor que se afoga em medos não compreendidos, que se perde no meio de todas as coisas, que não pode se transformar junto com a gente, se reapaixonando...
é triste e covarde o fim de um amor.

8.4.16

no meio




fico no caminho
entre o arrependimento
e as palavras beirando as estribeiras

existe uma distância definitiva entre as pessoas
damos voltas
procuramos pequenas saídas

não dá pra se imaginar como parte de outra coisa
nos confrontamos
nos enxergamos?

não podemos mais acreditar uns nos outros

vou ficando no meio
deslocada e estranha

nesse lugar, que não tem lugar na verdade

olhando os extremos
para cada lado, faço parte do outro oposto

boba e vazia
sem me concentrar
sem construir coisa alguma

vou tentando ir com calma
pisando no pouco que ainda sinto sólido

saio de tudo que corre tão rápido
me concentro na conversa com cada pessoa
e no tempo que insiste em parar tudo por dentro

30.3.16

dos rascunhos perdidos


Leonilson

uma mulher segue com seu corpo gasto
do tempo, do trabalho, dos amores, dos filhos,
das vontades vividas e não vividas
das violências

um corpo que vai ficando cheio de marcas
em que as formas se rearranjam espremidas, tensionadas, esticadas

um corpo que segue, as vezes de carne, as vezes de vento
seguindo mesmo sem existir, sem assumir o controle, respondendo mecânicamente

um corpo estranho, cheio de entranhas
o corpo de uma mulher nunca é só um corpo, é uma tentativa, é uma condição...
tão precária, tão desumana.



Leonilson


cedo ou tarde constatamos nossa solidão, não temos referências, não temos casa e a sensação de desamparo sopra fria nos ouvidos, fica difícil escutar, enxergar, falar, mudar qualquer coisa... a vontade de chorar é mais forte.

buscamos as pessoas em volta, os sentidos nos planos que fizemos, a vontade que um dia foi tão forte, tudo parece distante.

o sono vem de dia e desaparece nas noites de domingo, levando nossos corpos à exaustão prematura da segunda-feira, da semana carregada de obrigações, das pessoas que andam aceleradas para todos os lados, se cruzam, se perdem, não se enxergam.

os beijos vão parecendo poucos e espalhados no tempo, os olhares se desviam, os corpos não se procuram mais... assim nascem os dias, passam as horas, assim sufocamos os sonhos, esquecemos os amores...

Leonilson



29.1.16

lembra

lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber
e você nem sabia?

dois em um, Alice Ruiz

.

gasto todos os poemas na primeira noite
fico com medo de não sobrar nenhum
e os dias se estendem

o tempo só passa em volta
aqui dentro
tudo é pausa
tudo
está parado

deixo
desligo
saio
sumo

pra fazer passar
esse tempo que não dá sossego
a pausa
o medo
tudo que não cabe
que não sabe
que quer ficar
ou deixar...

27.1.16

das impressões vagarosas que sempre ficam






penso nos últimos dias
nas poesias

em toda sensação que me toma

na respiração da tua boca
na madeira fosca
nos seus braços apoiando meus joelhos
no encontro de qualquer desajeitado movimento
no beijo
no quase tocar das bocas, lábios e anseios
que se ligam na fragilidade do ar, indo e vindo

fecho os olhos puxando
as impressões vagarosas que sempre ficam

do suor
da saliva
da pele

que marcam o corpo
que tocam os seios
que escapam de toda palavra
de todo sentido

arrepio
tremor
abrigo