29.4.26

Sorry, baby


tava ouvindo um episódio de podcast do “@la_fora_cast - a psicanálise na voz de duas mulheres” sobre o traumático das coisas que podem acontecer numa vida, e ele conseguiu ir me explicando muitas coisas que senti nos últimos anos, principalmente na parte que fala de quando você se sente constantemente invadida, e como a sua energia e forma de funcionar do “ego” podem ficar tão esgotados com isso. esse sentimento de tudo ser extremamente invasivo te pressiona e impõe a ir usando todos os recursos psíquicos que conseguimos acessar para se defender de praticamente tudo em volta, uma necessidade de se preservar a todo custo, como se a sua própria vida e identidade dependessem disso, o mundo se torna ainda mais um campo minado de batalha… todo o "sujeito-ego" vai ficando prejudicado, fragmentado, esgotado, como se não conseguisse nem mais pensar ou enxergar direito, isso se transforma numa barreira física mesmo, e assim as suas condições de ter espaço pra pequenas alegrias ficam todas bagunçadas, tudo fica muito angustiante e triste...

acho que isso é responsabilidade de como é a vida acelerada e conturbada no capitalismo, e de como estamos sujeitas a diversos traumas com situações abusivas de machismo, violência e brutalidade com a essência e dignidade humanas, principalmente das mulheres e dos grupos que sofrem as maiores opressões na nossa sociedade. fui entendendo com bastante dificuldade, que isso foi uma consequência do que aconteceu em determinada fase da vida mais difícil, em que me senti de fato DESTRUÍDA, e então para me recuperar precisava (e ainda preciso) de tempo, TEMPO. tempo para ir mudando tudo dentro e em volta. em tudo a cada momento ir encontrando um outro jeito de ser e estar, e ir experimentando se conseguia ser uma pessoa de novo. isso exigiu um recolhimento concreto, meio radical, muitas situações e pessoas em volta não conseguiram entender, não conseguiram acompanhar, mesmo as que gostam verdadeiramente de mim, foram se formando fissuras com a realidade, com o entorno e com as pessoas, por um tempo não pude abandonar nem um lado e nem outro, nem o meu tempo e necessidade, e nem o tempo e necessidade dos outros, então acabei vivendo por dentro dessas FISSURAS e isso causou amadurecimento e coisas boas puderam existir também, mas causou dor, adoecimento e sintomas.

acho que foi por isso que gostei tanto, tanto daquele filme belíssimo "Sorry, baby", da Eva Victor, cada etapa do filme leva em torno de 1 ano num ritmo totalmente fora do esperado no mundo em volta, vagarosamente, num equilíbrio tênue quase estático que as pequenas mudanças sutis acontecem, Agnes e sua melhor amiga Lydie dão um jeito de respeitar esse tempo necessário, e se passam praticamente 4 anos até que ela consiga ir voltando a ter esses espaços das pequenas alegrias, isso não é artificial ou forçado, foi só o tempo preciso para conseguir existir… 

senti um alívio tão bonito de ver esse tempo que a Agnes-Eva precisou, como se eu pudesse também poder parar de me pressionar e acelerar tanto, e que posso só e apenas ficar quieta um pouco, porque no fim das contas a vida é minha e se não consigo nem me sentir constituída como uma pessoa minimamente, nada em volta faz sentido e a pressa não ajuda em nada, nada, só te deixa mais triste.




Nenhum comentário:

Postar um comentário